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Ma Jong climático

Na luta pelo controle dos gatilhos do aquecimento global seus agentes causadores parecem ter ganho mais um round em 2019. A sucessão de fracassos experimentados na última década nos levou afasta, ainda mais, das metas para 2050.

Os compromissos assumidos pelos 196 países, neles incluído o Brasil, na conferência do clima – CoP-21 em 2015 em Paris, não tem surtido o efeito então esperado. A proposta de manter o aquecimento global bem abaixo de 2°C acima dos valores pré-industriais, parece agora quase impossível de ser cumprida.
As emissões mundiais de gases-estufa ao invés de baixarem continuam crescendo e os resultados pífios da COP-25 em Madri soaram como perda de tempo ou, pior ainda, perda do timing.

Ainda a se confirmar, o ano de 2019 terá sido o 3º mais quente do último século, ficando atrás apenas de 2016 e 2015 e os próximos 12 meses serão cruciais para o combate ao aquecimento global. Novas estratégias deverão ser propostas para consolidação na COP 26 que terá lugar em Glasgow, quando se espera que os países participantes apresentem metas mais ambiciosas para o corte das emissões.

Para que venha a se cumprir o objetivo climático compromissado no acordo de Paris todas as economias desenvolvidas deverão se tornar zero em emissões de carbono até 2050. Neste grupo se insere a China que, até 2050, conforme sua própria avaliação deverá ser uma economia rica plenamente desenvolvida, e ter ultrapassado até mesmo o maior PIB per capita da União Europeia.

A mesma China que espera um pleno desenvolvimento que a coloque a frente dos países da UE até 2050 deverá também ter alcançado, até então, uma economia de carbono zero sob pena de, em não o fazendo, tornar inócuo o resultado de qualquer esforço dos demais países. Ainda que os países europeus promovam um corte de 80% a 100% na emissão de carbono, sem um nível zero de emissão por parte da China, maior poluidor global, ficar-se-á bem aquém dos números desejados. Para tanto será indispensável um maciço investimento do governo chinês em energia renovável, considerando as necessidades que advirão do desenvolvimento acelerado e da consequente elevação do padrão de vida da população.

A Agência Internacional de Energia (AIE), em seu mais recente Panorama Energético Mundial, coloca como o maior desafio a ser enfrentado a captação nos países de baixa renda de maciços investimentos em energia renovável, destacando-se os do continente africano, região dotada dos melhores recursos solares do mundo e que, entretanto, explora hoje menos de 1% de sua capacidade solar fotovoltáica.

Entre nós, a atuação do Brasil na COP 25 acompanhou o tratamento dado pelo setor público às questões climáticas. Vale ressaltar que a pouca importância dada pelo governo brasileiro a um tema crucial para o futuro da humanidade e de alta visibilidade na mídia mundial, em nada contribui para a imagem do país. Muito ao contrário, em conjunto com mudanças regulatórias que desencorajam o desenvolvimento de novas fontes de energia renovável, tende a afastar os investimentos necessários para atender a demanda (imediata) de energia que os 2% do aumento do PIB em 2020 irão trazer.

O Reino Unido divulgou resultados de pesquisa da sua Comissão de Mudança Climática apontando um nítido decréscimo para os valores incidentes no seu PIB de 2050 no que diz respeito a conquista de uma economia zero de gases de efeito-estufa e sem sacrifícios para o padrão de vida da sua população. Outros países também estão debruçados em cálculos que concluem pela queda de 80% a 70%, respectivamente, nos preços de desenvolvimento e implantação de energia solar e eólica na última década, o que ajuda a viabilizar a projeção de substituição de fonte energética e as metas para 2050.

Entretanto, parece haver poucas dúvidas quanto à necessidade das economias desenvolvidas, juntamente com a China, se comprometerem unilateralmente com a obtenção das emissões zero até 2050 visto que sem um resultado de 100% no corte das emissões de gases de efeito-estufa pela China, até mesmo os 100% de corte de todos os demais países não serão suficientes para conter o aquecimento global.

Também não há que se desprezar a necessidade economias emergentes investirem em fontes renováveis de energia para poderem vir a cumprir a meta de zero emissão de gases-estufa 10 anos após, em 2060.

Assim sendo, indiscutivelmente, a questão será decidida no tabuleiro chinês, com um único jogador detendo o poder da vitória.

Janeiro de 2020 – Gloria Faria